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sexta-feira, 6 de abril de 2012

CONTOS DE BARÃO

APONTAMENTO DE REPARTIÇÃO
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Tinha perdido as últimas esperanças. Agora era um predestinado, como os outros. Tinha uma cadeira para sentar-se, uma secretária vertical, à frente, carimbos, papéis, mais papéis e a configuração rectangular da sala. O resto era igual a tudo o resto - paredes lisas e verticais, tecto horizontal do fumo dos cigarros com filtro, estantes polidas do roçar dos livros das coisas dos outros, luzes oblíquas, máquinas de calcular o tempo e, por cima de tudo, o inconcebível tempo.                                                  
Mas o que mais solenemente o aborrecia era estar entre coisas velhas, gastas - peças de repartição, das autênticas!...           
Pensou que o termo funcionário é duma lucidez espantosa.
Funcionário! - Dez, quinze, vinte, trinta anos, sentado, no mesmo lugar, às mesmas horas, a escrever os mesmos números!...
Na sala havia um velho relógio de parede, também peça de museu - reparou, quando, depois de receber as primeiras instruções do chefe, olhou à volta, numa tentativa de síntese rápida.                   
... E os outros também irremediáveis funcionários a aproveitar a oportunidade para pôr os braços em descanso, sob pretexto de curiosidade indefinida.                                  
... E as janelas, fechadas, fechadas por causa do frio e cortinadas por causa do sol.                            
... E o chão da sala em paralelipípedes de madeira castanha.
... E o relógio, subitamente, visto mais de longe, sem ponteiros!
Sentou-se no lugar que lhe indicaram e não desgostou. Era ao fundo da sala, escondido, bom ponto de observação. Por uma réstia de janela miraculosamente aberta podia até ver-se um céu azul e nuvens brancas em liberdade.                                       
Mas, de repente, a curiosidade dos outros, agora mais definida:
"Que habilitações tem? Tem o curso do Comércio? "                             
"Não, não... Tenho o curso do Liceu... "
"Ah, melhor... melhor!... Por que não concorre para aspirante? Concorra! Concorra! "
Vozes de todos os lados: "Concorra!... concorra!... "
rrr... rrr... 
Concorra, concorra!...
rrr... rrr...
De todos os lados: rrr... rrr...                                           
"Bem… eu... Talvez... " - Sentia-se um pouco confuso.
"Concorra, concorra!... "
 rrr... rrr... rrr...                                        
Nada feito.           
O relógio marcava cinco e vinte. "
Nunca mais chegava a hora de sair!                                            
E só quando olhou outra vez o relógio, é que notou que os ponteiros estavam parados.
Eternamente parados.
Eternamente parados, à espera das derradeiras cinco e meia que nunca mais viriam.