quarta-feira, 19 de setembro de 2012

25 de Abril de 2013

A COMISSÃO DE HONRA
em Correio de Lagos
Ao centro: General Ramalho Eanes (antigo Presidente da República) e Esposa.
O evento será promovido pelo Director do Correio de Lagos 
- Comendador Cândido Igrejas (ao centro).

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

LIVRO PROIBIDO



O meu livro de poesia “Os Sinais da Terra”, 
foi proibido pela Censura/Pide, em 1962, 
pouco tempo depois de ter saído. 


Vão fazer 50 anos, que a notícia me chegou às mãos, por um amigo, dono duma livraria.
Aqui se mostra o boletim enviado aos livreiros, dando conta da proibição.
O livro consta da obra “Livros Proibidos no Regime Fascista”, da autoria de Maria Luísa Alvim e está catalogado com o número 360.

clicar para melhor ler

quinta-feira, 21 de junho de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

CONTOS DE BARÃO

APONTAMENTO DE REPARTIÇÃO
.


Tinha perdido as últimas esperanças. Agora era um predestinado, como os outros. Tinha uma cadeira para sentar-se, uma secretária vertical, à frente, carimbos, papéis, mais papéis e a configuração rectangular da sala. O resto era igual a tudo o resto - paredes lisas e verticais, tecto horizontal do fumo dos cigarros com filtro, estantes polidas do roçar dos livros das coisas dos outros, luzes oblíquas, máquinas de calcular o tempo e, por cima de tudo, o inconcebível tempo.                                                  
Mas o que mais solenemente o aborrecia era estar entre coisas velhas, gastas - peças de repartição, das autênticas!...           
Pensou que o termo funcionário é duma lucidez espantosa.
Funcionário! - Dez, quinze, vinte, trinta anos, sentado, no mesmo lugar, às mesmas horas, a escrever os mesmos números!...
Na sala havia um velho relógio de parede, também peça de museu - reparou, quando, depois de receber as primeiras instruções do chefe, olhou à volta, numa tentativa de síntese rápida.                   
... E os outros também irremediáveis funcionários a aproveitar a oportunidade para pôr os braços em descanso, sob pretexto de curiosidade indefinida.                                  
... E as janelas, fechadas, fechadas por causa do frio e cortinadas por causa do sol.                            
... E o chão da sala em paralelipípedes de madeira castanha.
... E o relógio, subitamente, visto mais de longe, sem ponteiros!
Sentou-se no lugar que lhe indicaram e não desgostou. Era ao fundo da sala, escondido, bom ponto de observação. Por uma réstia de janela miraculosamente aberta podia até ver-se um céu azul e nuvens brancas em liberdade.                                       
Mas, de repente, a curiosidade dos outros, agora mais definida:
"Que habilitações tem? Tem o curso do Comércio? "                             
"Não, não... Tenho o curso do Liceu... "
"Ah, melhor... melhor!... Por que não concorre para aspirante? Concorra! Concorra! "
Vozes de todos os lados: "Concorra!... concorra!... "
rrr... rrr... 
Concorra, concorra!...
rrr... rrr...
De todos os lados: rrr... rrr...                                           
"Bem… eu... Talvez... " - Sentia-se um pouco confuso.
"Concorra, concorra!... "
 rrr... rrr... rrr...                                        
Nada feito.           
O relógio marcava cinco e vinte. "
Nunca mais chegava a hora de sair!                                            
E só quando olhou outra vez o relógio, é que notou que os ponteiros estavam parados.
Eternamente parados.
Eternamente parados, à espera das derradeiras cinco e meia que nunca mais viriam.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O CARNAVAL E A QUARESMA

CARNAVAL
.

Rigorosamente, segundo Bula Papal datada do ano 350 da Era Cristã, o período da Quaresma começa logo a seguir ao Carnaval, um segundo depois da meia-noite de Terça-feira de Entrudo. Mas, entre nós, a determinação do papa Júlio I, há muito tempo que foi relegada para o esquecimento.
Os padres bem podem vestir a paramenta roxa da quadra religiosa, mas ela só adquire o seu verdadeiro sentido e efeito, quando se escoarem os restos festivos da festa pagã do corpo. E isso só virá a acontecer... Quaresma adentro!
E é assim que naquele Entrudo de há cinquenta anos, o último baile de Carnaval haveria de durar até já bem depois do nascer do sol!... Aliás, como era costume naquela Sociedade Recreativa – a mais castiça, a mais genuína da cidade – o Marítimo!
À meia-noite – e certamente não para anunciar o princípio da abstinência, recolhimento e oração –, as luzes da sociedade apagaram-se e acenderam-se três vezes. Era sim, para a saída das máscaras! A partir daí, só era permitida a presença dos sócios, e todos deveriam ter a cara a descoberto, para a continuação do baile.
A porta de entrada foi fechada. Não era para ninguém entrar, mas sim… para ninguém sair! As janelas, essas, tinham as gelosias corridas… muito provavelmente para esconder a claridade do sol, quando ele viesse.
A orquestra “Os Merry Boys”, muito popular na época, encetou a parte final do baile, com marchas, slows e tangos, tão do agrado dos mais velhos, já com a perna cansada.
E a cada nova série, os mancebos iam buscar as moças que se encontravam disponíveis, num cerimonial cortês, de grande galhardia e leveza.
Depois havia de tudo: o puro prazer da dança, ou as promessas de amor, a volúpia disfarçada e a luxúria possível a coberto do tango ou dos slows, sob o olhar atento das mães e avós que se sentavam ao redor do recinto, a espreitar qualquer indício de rebaldaria.
A noite avançava sem ninguém dar por isso. Percebia-se, sim, o cansaço que se via nos rostos, e a humidade que pairava no ar e se condensava nas vidraças, misturada com o aroma ácido do bom azeite desses tempos, a fritar postas de moreia, no bufete. Os homens tinham posto de lado o casaco e aberto o colarinho da inevitável gravata. As camisas colavam-se ao suor dos corpos.
Eram quase seis da manhã, quando começou o baile mandado, mandado a preceito por um mandador de ocasião, que ensaiou as primeiras quadras, ao som da música, que começava a ameaçar tornar-se frenética!
– Vai de roda! Vai de roda, sem parar!
.
Dá-lhe um toque mais acima
dá-lhe um toque mais abaixo
dá-me a tua pintassilga
pra brincar com o meu cartaxo!
.
Esta noite toda a noite
uma menina e mais eu
coitadinha não sabia
todo o trabalho foi meu!
.
Uma velha muita velha
foi mijar ao rocio
deu-lhe o vento na lòlinha...
até mijou de assobio!
,
E foi então que alguém gritou:
– O corridinho!... Vai tudo dançar o corridinho!
Mesmo as velhas saltaram dos lugares e algumas foram buscar os já meio-bêbados maridos que bebiam copos de vinho tinto e medronhos, no bufete!
Na sala de baile, os pares rodopiavam, ensaiando os passos, as "escovinhas" e as correduras próprias da tradição e dos floreados do acordéon. Multiplicavam-se os encontrões e as pisadelas dos menos lestos. A água de condensação começou a cair do tecto, em grossas gotas. Mas a pura alegria voltava aqueles rostos cansados. Festa é festa! E só no ano seguinte haveria outra igual.
Por fim, ao fim dum tempo, os pares foram rareando, esgotadas as forças dos mais velhos. Mas os resistentes não davam mostras de abrandar e muito menos desistir.
– Siga o baile!... – ouvia-se com frequência.
Até que, umas boas duas horas depois de ter começado a sucessão interminável de corridinhos, uns a seguir aos outros, o presidente da colectividade subiu ao palco, mal podendo respirar, e anunciou em voz grave, mas contrafeita e entristecida.
– Prezados consócios!... O baile tem de terminar. São quase nove e meia da manhã!...
E, após uma pequena pausa para recuperar o bafo, rematou, ofegante, suado até à medula:
Mai logo há matinè... às quatro da tarde!...

terça-feira, 6 de março de 2012

AMTOLOGIA AR - BRASIL






Acaba de sair a antologia AR,

do Editorial Beco Dos Poetas,

de S. Paulo,

onde estou

representado.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CONTOS DE BARÃO


A MINHA PARTICIPAÇÃO

As Flores da Terra

.Naquela manhã, Miss Simpson levantou-se há mesma hora de todos os dias, saiu de casa para regar as flores do quintal e admirar a linda rosa vermelha que desabrochara no dia anterior. Mas a rosa desaparecera. Tinha sido cortada pelo caule, talvez com uma ou duas folhas. Fleumaticamente, a solteirona inglesa encolheu os ombros e iniciou o seu trabalho matinal. Havia mais uns botões a despontar. Dentro de poucos dias teria outras rosas vermelhas.

A essa mesma hora, uma pequena sonda descia numa região remota da Austrália, para colher uma vistosa perónia branco/rosa. Depois subiu ao céu, bem alto, até à nave que a esperava. Aí, abriu-se uma portinhola com uma espécie de prato, onde a sonda depositou a flor, e a nave recolheu-a. Iria ser fotografada em vários ângulos, analisada a sua textura, as folhas, os seus componentes e os respectivos compostos, sendo depois todos esses dados enviados para o distante planeta donde viera. Quando todo o trabalho estivesse concluído, seria elaborado um catálogo para distribuir por esse distante planeta, para que todos pudessem admirar a beleza das flores da Terra.

A pequena sonda voltou a descer, desta vez na Nova Zelândia, onde também era noite. Colheu éricas, um raminho de rústicas tawaris de pétalas brancas, com seus longos estames arroxeados, e voltou à nave. Umas boas horas passadas, desceu nos Açores e colheu uma vidália, com as suas inflorescências cerosas, pendentes e delicadas, de corola campanulada de cor branca rosada, endémica nessas ilhas atlânticas.

Havia muito trabalho pela frente. Mas os radars dos homenzinhos da Terra, não tinham ainda dado por elas. No entanto, um astrónomo amador, ao fotografar uma determinada região do céu, apercebeu-se de que uma estrela que por aí deveria estar, tinha desaparecido! Pensou rapidamente e concluiu que tinha sido ocultada. Talvez por um asteróide, dos muitos que se que interpõem na órbita do planeta. Registou as suas coordenadas e outros parâmetros e comunicou para a Agência Espacial. E logo os computadores rastrearam todos os registos e concluíram que o intruso não poderia ser um asteróide e, muito menos, um satélite terrestre artificial. E assim que alguém aventou a hipótese de ser uma nave extraterrestre, todas aquelas cabeças se puseram a pensar na maneira de trazê-la para a Terra.

Entretanto, a pequena sonda continuava o seu trabalho. Do catálogo já constavam magnólias do Himalaias, um lótus branco adorado pelos taoistas chineses desde o século IV, malmequeres, flores de cerejeiras do Japão, adornos amarelos com que se enfeitam os cactos do Arizona, papoilas várias, lírios e begónias, as perfumadas flores do pau-brasil, e teve um trabalho imenso na Colômbia a colher milhares de espécies de orquídeas.

Enquanto isso, os homenzinhos da Terra descobriam a maneira de trazer a nave, cá para baixo, para desvendar os seus segredos. Um enorme foguetão subiu pelos ares, na sua direcção, até a uns cem quilómetros de altura. Ao chegar - ajustadas as velocidades -, enrolaram a nave numa espécie de rede metálica, e os retro-foguetões do veículo espacial começaram a trazer a nave, na direcção do solo. Porém, logo à entrada na atmosfera terrestre, a nave começou a esboroar-se, reduzindo-se a pouco e pouco, consumindo-se em cinzas. A pequena sonda, desgovernada, estatelou-se no grande deserto do Saará.

E a essa mesma hora, Miss Simpson, que acabara de transpor a porta que levava ao jardim, constata, com grande tristeza e espanto, que as suas lindas rosas vermelhas tinham murchado, debutado, e as suas pétalas pendiam, vergadas, tristes, para a terra.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

EXPOSIÇÃO

Justificar completamente

ESTÁ PATENTE, NO BAR "FIM DA LINHA"
- JUNTO À ESTAÇÃO DA CP, EM LAGOS -,
um conjunto (10 dos 16) quadros
que compõem a minha exposição
"AS CORES DO POEMA"
As ilustrações, produzidas apenas com meios informáticos,
têm as dimensões dum A3
.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Publicações de Vieira Calado

Poesia:
* "37 Poemas", 1961, esgotado
* "Os Sinais da Terra", 1962, capa de Jorge Norvik, esg.
* "Poema para Hoje", 1977, esg.
* "Objecto Experimental", ilust. e capa de Hugo Beja,1978, esg.
* "A Palavra em Duas", capa de Deda, 1982, esg.
* "O Frio dos Dias", 1986, esg.
* "Como um Relógio de Areia", ed. Mic , 1993
* "Transparências", Pref. do Prof. Vilhena Mesquita,.ed. AJEA. 2000.
* "Lagos Ontem", 2 ª edição da C. M. de Lagos, 2005
* "Poemas Primeiros", reedição. AJEA, 2001
* "Por detrás das Palavras", capa de Adrienne Apers, Mic, 2002
* "Terrachã", ed. AJEA, 2004
* "Poemetos", volume I, 2004 (fora do mercado)
* "Poemas Soltos & Dispersos", 2005, esgotado
* "Arabescos", 2008, ed. litoral
* "Itinerário", edição Edium, 2008
* "Viagem através da Luz", ed. Papiro, 2009
* "As Cores do Poema", ed. litoral, 2010
* "Por detrás das Palavras", ed. Beco dos Poetas, S. Paulo, Brasil.
* "Algarve Ontem", ed. Litoral, 2011

Teatro:
* "A Solidão dos Deuses", litoral, 2011

Postais de Poesia:
Vários – colecção escopro, colecção litoral e outros.

Prosa
* "Merdock", 3ª edição, 2007, ed. AJEA
* "Estórias de Lagos & Arredores", Ed. C. M. L, 2007.

Divulgação Científica:
* "A Terra  e as Estrelas", Ed. Jornal Notícias de Lagos, 2006
* "História Breve dos Cometas", ed. Litoral, 2010
  

Ficção Extraterrestre
* "A Febre do Ouro", ed. litoral, 2011

Antologias, colectivos e outros:

* Poemas em jornais e revistas, desde 1956
* Letras para música de diversos autores, desde 1957 


* Maîtrise, "Les Relations entre le Portugal et l’Angleterre, 
.....pendant la Monarchie", Université de Vincennes, Paris, 1977,
* "Antologia Anti-Floral", ed. Barlavento, 1980
* Boletim do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, 

.........nº 102, 1987
* "Poemas de e sobre o Natal ", edições Mic, 1998
* "Cem Anos de Garcia Lorca, ed. Universitária, 1999
*  Cadernos "Costa d’ Ouro", vários
* "Poemas Satíricos e Outros", ed Mic , 2002
* "Poetânea", Edições Hugin., 2003
* "Escritores Portugueses do Algarve", ed. Colibri, 2006
* "5 Poetas de Lagos", ed. Grupo Amigos de Lagos, 2006
* "Di Versos" nº 10  – Águas Santas, 2007
*  Plaqueta Natal, 2007
* "Itinerário", ed. Edium, 2008
* "5 Poetas de Lagos" 2º Volume, ed. Gr. Amigos de Lagos, 2008
* Os Poetas nas Árvores, Espinho, Março 2009
* Entre o Livro e a Liberdade, Vila do Conde, 2010
* Poemas em Árvore do Natal, Pátio das Letras, Faro, 2010
* "Iª Seletiva", ed. Beco dos Poetas, S. Paulo, Brasil, 2011
* "IV Antologia de Poetas Lusófonos", Leiria, 2011
"Algarve Ontem", 2011
"Por detrás das Palavras", Beco dos Poetas, S. Paulo, Brasil
"As Cores do Poema", ed. Litoral
"Circunciclo", ed. Mágico de Oz, Rio de Janeiro, Brasil
"As Noites e os Dias", ed. Litoral, 2014
"Poemetos II", ed. Litoral, 2015


Exposições de Poesia Experimental e/ou Ilustrada
* Armazém Regimental, Lagos. * Coop. 30 Junho, 
* Museu de Aljezur. * Artebúrguer, Praia da Luz (2). 
* Pátio das Letras, Faro.
* Edifício da Antiga Câmara Municipal de Lagos.
*  Várias colectivas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Solidão dos Deuses - apresentação - TEATRO


 A cena passa-se por detrás da História.
Sugere-se uma cela em forma de "sela de cavalo":
côncava para fora, até ao infinito do infinito,
convexa para dentro, até ao electrão do electrão,
(o que, possivelmente, não é a exacta interpretação einsteiniana...)
mas que serve os desígnios do inumerável.
O cenário representa o Universo incompleto
– ainda não foi inventado o Homem.
Ao centro, está Deus.
.
Para facilitar a compreensão, tem um aspecto humano.
Deveria abarcar todo o Universo,
mas sugere-se que se represente assim
– que pareça que o Universo o envolve –
para não ter o espectador e Deus,
logo de princípio, uma sensação demasiada de solidão.
 .
Ao fundo e à direita, ao alto, o Sol.
.
Deus está no centro do Universo – o palco –
visto o Universo ser infinito
para fora (e para dentro!) em todas as possíveis direcções.
Imagine-lhe o espectador um aspecto físico qualquer.
Com a condição só,
de ter em conta a possível lembrança da perfeição –
necessariamente subjectiva e limitativa,
por isso mesmo objectiva e pontual.
Seria, no entanto, conveniente, que o Deus representado,
não fosse de forma alguma, de maior estatura que o Homem.
Nem mais pequeno.
E que a largura dos ombros e da testa dos dois,
fosse exactamente da mesma dimensão, para que
o limite das proporções dum, em relação ao outro, e vice-versa,
não deixe margem a conferir hipóteses de predestinação,
ao limiar da peça;
 .
para o que acontecer em cena,
 seja apenas a consequência precisa e única
dum equitável preestabelecido,
no mutável do tempo e na circunstancial
substantivação químico-psicológica das leis da matéria.
O resto do cenário é indiferente: pinte-se lhe as cores que se quiser,
acenda-se-lhe ou apague-se-lhe as tonalidades do inevitável verde,
ou cinzento que vá na alma de cada um.
Nem precisa uma réstia de mar,
para ter-se a certeza de que há o mar a circunscrever os horizontes.
 .
Entre o Deus e o Sol há uma árvore,
 uma macieira de dar maçãs, mas, por razões ainda obscuras,
a macieira tem apenas um fruto verde,
entre folhagem verde, de forma que mal se vê...
Ligeiramente à esquerda, uma razoável porção de barro.
 .
A personagem do meio da cena,
esse Deus inevitável centro do Universo,
começa a mover-se, dando alguns passos em frente
e parece que vai falar.
 .
Até aí, desde o princípio do Tempo,
nada acontecera de significativo nem de significante.
Nem dilemas, nem lutas, nem modificações de nada.
Apenas um todo estático, em expansão, mas estático.
Inerte. Mas latente.
Encerrando em si mesmo o fermento da transformação,
na forma e na acção, (de) forma a sair do círculo.
Mesmo que só para passar a um outro círculo (ciclo)
de-grau superior.
E assim por diante. Até à consumação do Tempo.
E ao seu domínio.
Até que, ao limiar do fim, seja encontrada a sua/nossa vontade:
a comunicação das almas/a plenitude do ser.
 .
Quando isso acontecer, ou seja,
quando o Deus do meio do palco romper a primeira palavra,
começam a abrir-se todas as portas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

AS CASAS

AS CASAS
..
Na cidade resvalamos pela lâmina dos dias
o contorno dos passeios antigos, as inscrições
do vento encurralado nos umbrais do tempo.
.
Aqui tecemos a teia da luz e da sombra
volúvel, da nossa obediência ao sol,
ao claro/escuro ágil clivagem duma nuvem,
ou a cirros de sono no lilás da tarde:
.
transitórios de corpos que são os nossos, hábeis
passageiros, limpos insectos de lábios trans-
lúcidos colados aos vitrais reflectidos para dentro,
onde roçam vestígios de amores idos
rasgados em sangue e esperma – versão a mais antiga
da pólvora/seta a mais veloz da ave –,
submersos de pequenas minúsculas aranhas voando
ao indelével vento dum fio de seda,
a bafejar a pele do corpo antiquíssimo
desde o fumo mais imemorial
de todos os segredos da vida
.
trazidos no eco dos frutos do pólen que veio
de ainda além das montanhas e do mar,
talvez de ainda além donde as estrelas
disparam a cinza cadente na noite acesa
de luz e poeira
com que amassamos os olhos terríveis
dos deuses.
.
Aqui, na cidade, nos multiplicamos de sede e náusea/
de amor e raiva,
no vaivém multicolor bocejo e riso da sombra e luz.
Aqui, sobre o veio da terra,
o ouvido encostado ao polo do seu eixo,
aqui talhámos aparelhámos as nossas pedras,
pedra a pedra,
pedra sobre pedra,
até à configuração solene duma casa.
.
E nós mesmos as construímos com as nossas mãos
a régua de cálculo, o prumo, esta forma erecta
e obsessiva
que temos
de nos afirmarmos perante nós mesmos e os outros,
esta forma que temos de desafiar a nossa unipresente
presença e imagem,
única, temporal, para sempre presente do que fomos.
.
Nós mesmos as construímos com as nossas mãos
e no entanto,
moldámos de arestas as pedras luminescentes,
planos, cubos, rectas paralelas, arcos estilizados,
colunas gregas,
para iludir o cansaço visual da forma
normal do corpo
onde provisoriamente habitamos,
habituados que estamos a habitar uma casa.

Nós mesmos as construímos com as nossas mãos
pedra a pedra, século a século,
e nelas gravámos os dias
ao feitio das páginas da chuva
a gotejar a chuva, vinda de cima para baixo,
do céu para a terra, onde plantámos pedra a pedra
as nossas casas.
.
E elas aí estão, humílimas e graves, vestidas de cal
e de salitre preclaro e efémero.
.
Habitaremos o seu refúgio, a penumbra amável
dos seus tectos
o espaço circunscrito dos familiares objectos
o teu corpo de mulher
grávida das noites de frio e cio.
.
Por aqui passamos passando vagabundeando os dias
ao encontro do acaso das ruas, do amigo de ocasião,
tremendo a luz no ocaso da sombra e frio.
.
Às vezes, na cidade, reconhecemo-nos nos outros
comungamos das suas alegrias mais triviais,
perpassamos pelas ruas rente às casas bailarinas
veladas de brancura e negro no estio da tarde;
.
às vezes topamos o torrão da terra
de como quem desce à vida imaginada
subitamente serena de açucenas pregadas sob a tarde
de perfil;
.
às vezes detemo-nos de exílio no próprio movimento
imaginário de partir,
chegando sempre ao mesmo sítio exactíssimo de exílio.
.
E voltamos de pétalas depois vestidos e marfim
nos olhos murmurando os amigos
os lugares
as coisas
e as casas que ficaram verticais vestidas de cal e de salitre,
enquanto sobre nós, na cidade, cai o sabre
de esquinas rectas e penumbra,
donde espreitamos o vento que ficou, como um fóssil
gravado em pedra na pedra fóssil.
.
E sabemos, ó, sabemos o recorte talhado de horizontes
ao lusco-fusco cristal púrpura do sol.
.
Bêbados, entramos pelas ruas, acordados,
inquietas aves rasando o espaço em círculos velozes
alargando em círculos de ar as rectas dos telhados
e o presente infinito desolado de galgos e punhais.
.
Na cidade, lembras-te, de mãos dadas, enleados,
percorremos a lídima mansão da puberdade,
o pasmo duma flor abrindo em flor
numa concha derramada de água sobre o mar
e a lídima paisagem do corpo, habitado
de que aromas,
só no tempo do Olimpo conhecidos
antes de alguns humanos serem deuses.
.
Aí vamos, rebentando pelos vincos da memória
a presença sempiterna do teu corpo/musgo antigo,
ou o gosto das avencas verdes de frescura
na vertigem breve da cidade
que volta revivendo de andorinhas
velocíssimas e iguais no abril dos séculos
em largos lagos largos círculos rasando
o horizonte de arestas e corais.
.
Em "5 POETAS DE LAGOS", Vol VI