terça-feira, 6 de março de 2012

AMTOLOGIA AR - BRASIL






Acaba de sair a antologia AR,

do Editorial Beco Dos Poetas,

de S. Paulo,

onde estou

representado.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CONTOS DE BARÃO


A MINHA PARTICIPAÇÃO

As Flores da Terra

.Naquela manhã, Miss Simpson levantou-se há mesma hora de todos os dias, saiu de casa para regar as flores do quintal e admirar a linda rosa vermelha que desabrochara no dia anterior. Mas a rosa desaparecera. Tinha sido cortada pelo caule, talvez com uma ou duas folhas. Fleumaticamente, a solteirona inglesa encolheu os ombros e iniciou o seu trabalho matinal. Havia mais uns botões a despontar. Dentro de poucos dias teria outras rosas vermelhas.

A essa mesma hora, uma pequena sonda descia numa região remota da Austrália, para colher uma vistosa perónia branco/rosa. Depois subiu ao céu, bem alto, até à nave que a esperava. Aí, abriu-se uma portinhola com uma espécie de prato, onde a sonda depositou a flor, e a nave recolheu-a. Iria ser fotografada em vários ângulos, analisada a sua textura, as folhas, os seus componentes e os respectivos compostos, sendo depois todos esses dados enviados para o distante planeta donde viera. Quando todo o trabalho estivesse concluído, seria elaborado um catálogo para distribuir por esse distante planeta, para que todos pudessem admirar a beleza das flores da Terra.

A pequena sonda voltou a descer, desta vez na Nova Zelândia, onde também era noite. Colheu éricas, um raminho de rústicas tawaris de pétalas brancas, com seus longos estames arroxeados, e voltou à nave. Umas boas horas passadas, desceu nos Açores e colheu uma vidália, com as suas inflorescências cerosas, pendentes e delicadas, de corola campanulada de cor branca rosada, endémica nessas ilhas atlânticas.

Havia muito trabalho pela frente. Mas os radars dos homenzinhos da Terra, não tinham ainda dado por elas. No entanto, um astrónomo amador, ao fotografar uma determinada região do céu, apercebeu-se de que uma estrela que por aí deveria estar, tinha desaparecido! Pensou rapidamente e concluiu que tinha sido ocultada. Talvez por um asteróide, dos muitos que se que interpõem na órbita do planeta. Registou as suas coordenadas e outros parâmetros e comunicou para a Agência Espacial. E logo os computadores rastrearam todos os registos e concluíram que o intruso não poderia ser um asteróide e, muito menos, um satélite terrestre artificial. E assim que alguém aventou a hipótese de ser uma nave extraterrestre, todas aquelas cabeças se puseram a pensar na maneira de trazê-la para a Terra.

Entretanto, a pequena sonda continuava o seu trabalho. Do catálogo já constavam magnólias do Himalaias, um lótus branco adorado pelos taoistas chineses desde o século IV, malmequeres, flores de cerejeiras do Japão, adornos amarelos com que se enfeitam os cactos do Arizona, papoilas várias, lírios e begónias, as perfumadas flores do pau-brasil, e teve um trabalho imenso na Colômbia a colher milhares de espécies de orquídeas.

Enquanto isso, os homenzinhos da Terra descobriam a maneira de trazer a nave, cá para baixo, para desvendar os seus segredos. Um enorme foguetão subiu pelos ares, na sua direcção, até a uns cem quilómetros de altura. Ao chegar - ajustadas as velocidades -, enrolaram a nave numa espécie de rede metálica, e os retro-foguetões do veículo espacial começaram a trazer a nave, na direcção do solo. Porém, logo à entrada na atmosfera terrestre, a nave começou a esboroar-se, reduzindo-se a pouco e pouco, consumindo-se em cinzas. A pequena sonda, desgovernada, estatelou-se no grande deserto do Saará.

E a essa mesma hora, Miss Simpson, que acabara de transpor a porta que levava ao jardim, constata, com grande tristeza e espanto, que as suas lindas rosas vermelhas tinham murchado, debutado, e as suas pétalas pendiam, vergadas, tristes, para a terra.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

EXPOSIÇÃO

Justificar completamente

ESTÁ PATENTE, NO BAR "FIM DA LINHA"
- JUNTO À ESTAÇÃO DA CP, EM LAGOS -,
um conjunto (10 dos 16) quadros
que compõem a minha exposição
"AS CORES DO POEMA"
As ilustrações, produzidas apenas com meios informáticos,
têm as dimensões dum A3
.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Publicações de Vieira Calado

Poesia:
* "37 Poemas", 1961, esgotado
* "Os Sinais da Terra", 1962, capa de Jorge Norvik, esg.
* "Poema para Hoje", 1977, esg.
* "Objecto Experimental", ilust. e capa de Hugo Beja,1978, esg.
* "A Palavra em Duas", capa de Deda, 1982, esg.
* "O Frio dos Dias", 1986, esg.
* "Como um Relógio de Areia", ed. Mic , 1993
* "Transparências", Pref. do Prof. Vilhena Mesquita,.ed. AJEA. 2000.
* "Lagos Ontem", 2 ª edição da C. M. de Lagos, 2005
* "Poemas Primeiros", reedição. AJEA, 2001
* "Por detrás das Palavras", capa de Adrienne Apers, Mic, 2002
* "Terrachã", ed. AJEA, 2004
* "Poemetos", volume I, 2004 (fora do mercado)
* "Poemas Soltos & Dispersos", 2005, esgotado
* "Arabescos", 2008, ed. litoral
* "Itinerário", edição Edium, 2008
* "Viagem através da Luz", ed. Papiro, 2009
* "As Cores do Poema", ed. litoral, 2010
* "Por detrás das Palavras", ed. Beco dos Poetas, S. Paulo, Brasil.
* "Algarve Ontem", ed. Litoral, 2011

Teatro:
* "A Solidão dos Deuses", litoral, 2011

Postais de Poesia:
Vários – colecção escopro, colecção litoral e outros.

Prosa
* "Merdock", 3ª edição, 2007, ed. AJEA
* "Estórias de Lagos & Arredores", Ed. C. M. L, 2007.

Divulgação Científica:
* "A Terra  e as Estrelas", Ed. Jornal Notícias de Lagos, 2006
* "História Breve dos Cometas", ed. Litoral, 2010
  

Ficção Extraterrestre
* "A Febre do Ouro", ed. litoral, 2011

Antologias, colectivos e outros:

* Poemas em jornais e revistas, desde 1956
* Letras para música de diversos autores, desde 1957 


* Maîtrise, "Les Relations entre le Portugal et l’Angleterre, 
.....pendant la Monarchie", Université de Vincennes, Paris, 1977,
* "Antologia Anti-Floral", ed. Barlavento, 1980
* Boletim do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, 

.........nº 102, 1987
* "Poemas de e sobre o Natal ", edições Mic, 1998
* "Cem Anos de Garcia Lorca, ed. Universitária, 1999
*  Cadernos "Costa d’ Ouro", vários
* "Poemas Satíricos e Outros", ed Mic , 2002
* "Poetânea", Edições Hugin., 2003
* "Escritores Portugueses do Algarve", ed. Colibri, 2006
* "5 Poetas de Lagos", ed. Grupo Amigos de Lagos, 2006
* "Di Versos" nº 10  – Águas Santas, 2007
*  Plaqueta Natal, 2007
* "Itinerário", ed. Edium, 2008
* "5 Poetas de Lagos" 2º Volume, ed. Gr. Amigos de Lagos, 2008
* Os Poetas nas Árvores, Espinho, Março 2009
* Entre o Livro e a Liberdade, Vila do Conde, 2010
* Poemas em Árvore do Natal, Pátio das Letras, Faro, 2010
* "Iª Seletiva", ed. Beco dos Poetas, S. Paulo, Brasil, 2011
* "IV Antologia de Poetas Lusófonos", Leiria, 2011
"Algarve Ontem", 2011
"Por detrás das Palavras", Beco dos Poetas, S. Paulo, Brasil
"As Cores do Poema", ed. Litoral
"Circunciclo", ed. Mágico de Oz, Rio de Janeiro, Brasil
"As Noites e os Dias", ed. Litoral, 2014
"Poemetos II", ed. Litoral, 2015


Exposições de Poesia Experimental e/ou Ilustrada
* Armazém Regimental, Lagos. * Coop. 30 Junho, 
* Museu de Aljezur. * Artebúrguer, Praia da Luz (2). 
* Pátio das Letras, Faro.
* Edifício da Antiga Câmara Municipal de Lagos.
*  Várias colectivas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Solidão dos Deuses - apresentação - TEATRO


 A cena passa-se por detrás da História.
Sugere-se uma cela em forma de "sela de cavalo":
côncava para fora, até ao infinito do infinito,
convexa para dentro, até ao electrão do electrão,
(o que, possivelmente, não é a exacta interpretação einsteiniana...)
mas que serve os desígnios do inumerável.
O cenário representa o Universo incompleto
– ainda não foi inventado o Homem.
Ao centro, está Deus.
.
Para facilitar a compreensão, tem um aspecto humano.
Deveria abarcar todo o Universo,
mas sugere-se que se represente assim
– que pareça que o Universo o envolve –
para não ter o espectador e Deus,
logo de princípio, uma sensação demasiada de solidão.
 .
Ao fundo e à direita, ao alto, o Sol.
.
Deus está no centro do Universo – o palco –
visto o Universo ser infinito
para fora (e para dentro!) em todas as possíveis direcções.
Imagine-lhe o espectador um aspecto físico qualquer.
Com a condição só,
de ter em conta a possível lembrança da perfeição –
necessariamente subjectiva e limitativa,
por isso mesmo objectiva e pontual.
Seria, no entanto, conveniente, que o Deus representado,
não fosse de forma alguma, de maior estatura que o Homem.
Nem mais pequeno.
E que a largura dos ombros e da testa dos dois,
fosse exactamente da mesma dimensão, para que
o limite das proporções dum, em relação ao outro, e vice-versa,
não deixe margem a conferir hipóteses de predestinação,
ao limiar da peça;
 .
para o que acontecer em cena,
 seja apenas a consequência precisa e única
dum equitável preestabelecido,
no mutável do tempo e na circunstancial
substantivação químico-psicológica das leis da matéria.
O resto do cenário é indiferente: pinte-se lhe as cores que se quiser,
acenda-se-lhe ou apague-se-lhe as tonalidades do inevitável verde,
ou cinzento que vá na alma de cada um.
Nem precisa uma réstia de mar,
para ter-se a certeza de que há o mar a circunscrever os horizontes.
 .
Entre o Deus e o Sol há uma árvore,
 uma macieira de dar maçãs, mas, por razões ainda obscuras,
a macieira tem apenas um fruto verde,
entre folhagem verde, de forma que mal se vê...
Ligeiramente à esquerda, uma razoável porção de barro.
 .
A personagem do meio da cena,
esse Deus inevitável centro do Universo,
começa a mover-se, dando alguns passos em frente
e parece que vai falar.
 .
Até aí, desde o princípio do Tempo,
nada acontecera de significativo nem de significante.
Nem dilemas, nem lutas, nem modificações de nada.
Apenas um todo estático, em expansão, mas estático.
Inerte. Mas latente.
Encerrando em si mesmo o fermento da transformação,
na forma e na acção, (de) forma a sair do círculo.
Mesmo que só para passar a um outro círculo (ciclo)
de-grau superior.
E assim por diante. Até à consumação do Tempo.
E ao seu domínio.
Até que, ao limiar do fim, seja encontrada a sua/nossa vontade:
a comunicação das almas/a plenitude do ser.
 .
Quando isso acontecer, ou seja,
quando o Deus do meio do palco romper a primeira palavra,
começam a abrir-se todas as portas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

AS CASAS

AS CASAS
..
Na cidade resvalamos pela lâmina dos dias
o contorno dos passeios antigos, as inscrições
do vento encurralado nos umbrais do tempo.
.
Aqui tecemos a teia da luz e da sombra
volúvel, da nossa obediência ao sol,
ao claro/escuro ágil clivagem duma nuvem,
ou a cirros de sono no lilás da tarde:
.
transitórios de corpos que são os nossos, hábeis
passageiros, limpos insectos de lábios trans-
lúcidos colados aos vitrais reflectidos para dentro,
onde roçam vestígios de amores idos
rasgados em sangue e esperma – versão a mais antiga
da pólvora/seta a mais veloz da ave –,
submersos de pequenas minúsculas aranhas voando
ao indelével vento dum fio de seda,
a bafejar a pele do corpo antiquíssimo
desde o fumo mais imemorial
de todos os segredos da vida
.
trazidos no eco dos frutos do pólen que veio
de ainda além das montanhas e do mar,
talvez de ainda além donde as estrelas
disparam a cinza cadente na noite acesa
de luz e poeira
com que amassamos os olhos terríveis
dos deuses.
.
Aqui, na cidade, nos multiplicamos de sede e náusea/
de amor e raiva,
no vaivém multicolor bocejo e riso da sombra e luz.
Aqui, sobre o veio da terra,
o ouvido encostado ao polo do seu eixo,
aqui talhámos aparelhámos as nossas pedras,
pedra a pedra,
pedra sobre pedra,
até à configuração solene duma casa.
.
E nós mesmos as construímos com as nossas mãos
a régua de cálculo, o prumo, esta forma erecta
e obsessiva
que temos
de nos afirmarmos perante nós mesmos e os outros,
esta forma que temos de desafiar a nossa unipresente
presença e imagem,
única, temporal, para sempre presente do que fomos.
.
Nós mesmos as construímos com as nossas mãos
e no entanto,
moldámos de arestas as pedras luminescentes,
planos, cubos, rectas paralelas, arcos estilizados,
colunas gregas,
para iludir o cansaço visual da forma
normal do corpo
onde provisoriamente habitamos,
habituados que estamos a habitar uma casa.

Nós mesmos as construímos com as nossas mãos
pedra a pedra, século a século,
e nelas gravámos os dias
ao feitio das páginas da chuva
a gotejar a chuva, vinda de cima para baixo,
do céu para a terra, onde plantámos pedra a pedra
as nossas casas.
.
E elas aí estão, humílimas e graves, vestidas de cal
e de salitre preclaro e efémero.
.
Habitaremos o seu refúgio, a penumbra amável
dos seus tectos
o espaço circunscrito dos familiares objectos
o teu corpo de mulher
grávida das noites de frio e cio.
.
Por aqui passamos passando vagabundeando os dias
ao encontro do acaso das ruas, do amigo de ocasião,
tremendo a luz no ocaso da sombra e frio.
.
Às vezes, na cidade, reconhecemo-nos nos outros
comungamos das suas alegrias mais triviais,
perpassamos pelas ruas rente às casas bailarinas
veladas de brancura e negro no estio da tarde;
.
às vezes topamos o torrão da terra
de como quem desce à vida imaginada
subitamente serena de açucenas pregadas sob a tarde
de perfil;
.
às vezes detemo-nos de exílio no próprio movimento
imaginário de partir,
chegando sempre ao mesmo sítio exactíssimo de exílio.
.
E voltamos de pétalas depois vestidos e marfim
nos olhos murmurando os amigos
os lugares
as coisas
e as casas que ficaram verticais vestidas de cal e de salitre,
enquanto sobre nós, na cidade, cai o sabre
de esquinas rectas e penumbra,
donde espreitamos o vento que ficou, como um fóssil
gravado em pedra na pedra fóssil.
.
E sabemos, ó, sabemos o recorte talhado de horizontes
ao lusco-fusco cristal púrpura do sol.
.
Bêbados, entramos pelas ruas, acordados,
inquietas aves rasando o espaço em círculos velozes
alargando em círculos de ar as rectas dos telhados
e o presente infinito desolado de galgos e punhais.
.
Na cidade, lembras-te, de mãos dadas, enleados,
percorremos a lídima mansão da puberdade,
o pasmo duma flor abrindo em flor
numa concha derramada de água sobre o mar
e a lídima paisagem do corpo, habitado
de que aromas,
só no tempo do Olimpo conhecidos
antes de alguns humanos serem deuses.
.
Aí vamos, rebentando pelos vincos da memória
a presença sempiterna do teu corpo/musgo antigo,
ou o gosto das avencas verdes de frescura
na vertigem breve da cidade
que volta revivendo de andorinhas
velocíssimas e iguais no abril dos séculos
em largos lagos largos círculos rasando
o horizonte de arestas e corais.
.
Em "5 POETAS DE LAGOS", Vol VI


sábado, 12 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

O EVENTO


O Dr. Júlio Barroso, Presidente da Câmara Municipal de Lagos/ Wilson Cruz, de Porto Seguro, Brasil/ e eu.

Os três laureados.






Medalha de Mérito Municipal (grau ouro)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ebook

Feito no Brasil por Maria Madalena, do blog Portugal Poético 
clicar na imagem
clicar na flor ou arrastar a página, depois de alguns segundos, pois leva algum tempo a abrir
(Por vezes é preciso um pouco de paciência... rs rs rs!)

domingo, 16 de outubro de 2011

ALGARVE ONTEM

1 - O ALGARVE DE ONTEM 



 .

capa do livro














.




Sou do tempo de um outro Algarve, outras regras e preceitos,
outra condição de gente humilde e nobre
que habitou este enredo de amendoeiras e alfarrobeiras,
gente que olhava nos céus os sinais que nunca vinham,
uma quieta intranquilidade nas estevas
que amassavam devagar o pão de trigo,
o funcho que trazia o cheiro das esteiras
onde iam secando as almas e o figo das colheitas.
 .
Era o tempo de um outro Algarve encoberto nas aldeias
e nos campos onde ardia o azeite da candeia,
a lanterna que acendia a escuridão das noites
subjugadas pelo frio agreste de acreditar num dia de fortuna;
das mulheres embrulhadas em seus xailes negros
herdados de avós árabes que há séculos aqui viveram
e do luto prolongado de quem só tem a vida,
que a vida é mais do que só para ser vivida
também é uma ventura partilhada,
um modelo prometido de amparo e claridade.
 .
Mas também era o tempo do vinho encorpado e rijo
que meu avô podava, sulfatava e enxofrava com paixão
em virtuosas cepas de trincadeira e piriquita;
e era o tempo das iguarias ansiadas da alma dum pardal
a bater um corridinho atrás da pardeleja
quando chega a primavera,
era o tempo da contemplada redenção pela palavra
que valia uma palavra,
um gesto que dizia uma verdade.
.
Era um tempo agreste e gracioso,
esse tempo do outro Algarve que eu vivi
nas espigas do trigo que sorriam desde a aurora,
o pólen que dourava os ares e os horizontes
no folhedo duma tangerina perfumada, 
ou dum medronho fermentado, inebriante,
na cadência dos braços afeitos à ventura ímpar
das chuvas em seu próprio tempo,
alheios ao cansaço e ao suor dos sóis impetuosos,
implorando ao vento passageiro
que soprasse para longe os sinais do temporal
o joio e as canouras do ervado,
para o abrigar do grão do trigo no celeiro.
 .
Sou do tempo dos mares benignos de Larache,
barcos que entravam pela barra trazendo o biqueirão
com que se fazia o paladar mais grácil que o mar tem,
ou o atum salgado,
- que corria nas águas da sardinha e da cavala -
     curtido,
       amendoado,
         amanteigado,
          apaladado
do copejo das armações
do Sotavento,
 .
Era o tempo da tempestade que descia aos pés da praia
entrando pela porta, ao pé da barra,
nas brancas açoteias e na ruína dum casebre
onde se amontoavam os filhos e os netos,
o naufrágio dum país que morria entre os seus muros,
e trazia a angústia dum cântico furtivo de preces e de pragas
pela espuma obstinada das montanhas do oceano
caindo sobre a noite,
promissora frustrada dos sonhos de besugos e douradas.
 .
Era o tempo da transitória quimérica alegria
resignada pela sorte do tempo da alegria que viesse
ou da maldição dos elementos que sobre a terra se abatesse
fosse no mar bravio ou na terra de secura
fosse no mal dos que sofriam a desgraça da moléstia
que haveria de levar o corpo sem remédio
à dura terra, às portas sempre entreabertas do céu sereno,
a última esperança no que fora a esperança dum só dia.
 .
Por isso era luminosa e terrível a condição do povo,
por entre a prostração e o aceite  inconformado,
mas aceite por lei irrevogável,
e feliz por ter a vida e as coisas simples
de que se alimentavam o corpo e o pensamento,
embora submerso da penúria
de não habitar a legítima plenitude,
pela ignorância de imaginar outras regras e preceitos,
outras condições só possíveis no écran reluzente dos cinemas,
pobre e podre a tranquilidade soando por entre as oliveiras
ou no cansaço demorado dos braços que arcavam
o rabicho do arado.
 .
Mas havia o Sol, um pintassilgo no silvedo a estrepitar
as nêsperas e as amoras nos olhos dum miúdo
que brincava nos quintais, numa horta do centro da cidade,
ou na calçada, onde jogava a bola na vidraça da janela, 
e a menina que dobava os seus lavores
atrás do encoberto da janela
suspirava de saudades na penitência, pela rua que passava
e pelo jogo de outras mãos em suas mãos.
.
E havia a descoberta dos bichos animados pelo sopro
duma existência frugal, a descoberta da essência exacta,
uma rã que se cumpre entre o verdume do riacho
no seu próprio tempo de morte e vida
e do sexo enevoado sob uma qualquer folha da videira,
o calhau da praia onde os putos apanhavam navalheiras
quando as marés da Lua permitiam
e cabozes e alcabrozes presos ao anzol e ao logro
de não ver o evidente, como se não fosse isso a própria vida
de todos os pássaros que chegam com o vento do oceano,
para soçobrar ao isco traiçoeiro dum anel de fogo e prata.
 .
Por isso era belo o meu Algarve quando o vi criança ainda,
disfarçadas essas feridas, escondidos os pedintes
indigentes à porta duma igreja ou quando alguém passava
deste mundo exausto para o eterno olvido de seus dias,
era belo o meu Algarve,
sem os fumos de outros mares de tormenta
sem a liça da guerra de outros povos,
outros polvos avassaladores
como o polvo entre os seus braços abraçando um caranguejo
no seu abraço de ventosas e de asfixia prolongada,
uma abóbora prosperando numa leira de tomates e pepinos.
 .
em "ALGARVE ONTEM" - o meu último livro, ainda em promoção - 5 euros