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domingo, 16 de outubro de 2011

ALGARVE ONTEM

1 - O ALGARVE DE ONTEM 



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capa do livro














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Sou do tempo de um outro Algarve, outras regras e preceitos,
outra condição de gente humilde e nobre
que habitou este enredo de amendoeiras e alfarrobeiras,
gente que olhava nos céus os sinais que nunca vinham,
uma quieta intranquilidade nas estevas
que amassavam devagar o pão de trigo,
o funcho que trazia o cheiro das esteiras
onde iam secando as almas e o figo das colheitas.
 .
Era o tempo de um outro Algarve encoberto nas aldeias
e nos campos onde ardia o azeite da candeia,
a lanterna que acendia a escuridão das noites
subjugadas pelo frio agreste de acreditar num dia de fortuna;
das mulheres embrulhadas em seus xailes negros
herdados de avós árabes que há séculos aqui viveram
e do luto prolongado de quem só tem a vida,
que a vida é mais do que só para ser vivida
também é uma ventura partilhada,
um modelo prometido de amparo e claridade.
 .
Mas também era o tempo do vinho encorpado e rijo
que meu avô podava, sulfatava e enxofrava com paixão
em virtuosas cepas de trincadeira e piriquita;
e era o tempo das iguarias ansiadas da alma dum pardal
a bater um corridinho atrás da pardeleja
quando chega a primavera,
era o tempo da contemplada redenção pela palavra
que valia uma palavra,
um gesto que dizia uma verdade.
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Era um tempo agreste e gracioso,
esse tempo do outro Algarve que eu vivi
nas espigas do trigo que sorriam desde a aurora,
o pólen que dourava os ares e os horizontes
no folhedo duma tangerina perfumada, 
ou dum medronho fermentado, inebriante,
na cadência dos braços afeitos à ventura ímpar
das chuvas em seu próprio tempo,
alheios ao cansaço e ao suor dos sóis impetuosos,
implorando ao vento passageiro
que soprasse para longe os sinais do temporal
o joio e as canouras do ervado,
para o abrigar do grão do trigo no celeiro.
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Sou do tempo dos mares benignos de Larache,
barcos que entravam pela barra trazendo o biqueirão
com que se fazia o paladar mais grácil que o mar tem,
ou o atum salgado,
- que corria nas águas da sardinha e da cavala -
     curtido,
       amendoado,
         amanteigado,
          apaladado
do copejo das armações
do Sotavento,
 .
Era o tempo da tempestade que descia aos pés da praia
entrando pela porta, ao pé da barra,
nas brancas açoteias e na ruína dum casebre
onde se amontoavam os filhos e os netos,
o naufrágio dum país que morria entre os seus muros,
e trazia a angústia dum cântico furtivo de preces e de pragas
pela espuma obstinada das montanhas do oceano
caindo sobre a noite,
promissora frustrada dos sonhos de besugos e douradas.
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Era o tempo da transitória quimérica alegria
resignada pela sorte do tempo da alegria que viesse
ou da maldição dos elementos que sobre a terra se abatesse
fosse no mar bravio ou na terra de secura
fosse no mal dos que sofriam a desgraça da moléstia
que haveria de levar o corpo sem remédio
à dura terra, às portas sempre entreabertas do céu sereno,
a última esperança no que fora a esperança dum só dia.
 .
Por isso era luminosa e terrível a condição do povo,
por entre a prostração e o aceite  inconformado,
mas aceite por lei irrevogável,
e feliz por ter a vida e as coisas simples
de que se alimentavam o corpo e o pensamento,
embora submerso da penúria
de não habitar a legítima plenitude,
pela ignorância de imaginar outras regras e preceitos,
outras condições só possíveis no écran reluzente dos cinemas,
pobre e podre a tranquilidade soando por entre as oliveiras
ou no cansaço demorado dos braços que arcavam
o rabicho do arado.
 .
Mas havia o Sol, um pintassilgo no silvedo a estrepitar
as nêsperas e as amoras nos olhos dum miúdo
que brincava nos quintais, numa horta do centro da cidade,
ou na calçada, onde jogava a bola na vidraça da janela, 
e a menina que dobava os seus lavores
atrás do encoberto da janela
suspirava de saudades na penitência, pela rua que passava
e pelo jogo de outras mãos em suas mãos.
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E havia a descoberta dos bichos animados pelo sopro
duma existência frugal, a descoberta da essência exacta,
uma rã que se cumpre entre o verdume do riacho
no seu próprio tempo de morte e vida
e do sexo enevoado sob uma qualquer folha da videira,
o calhau da praia onde os putos apanhavam navalheiras
quando as marés da Lua permitiam
e cabozes e alcabrozes presos ao anzol e ao logro
de não ver o evidente, como se não fosse isso a própria vida
de todos os pássaros que chegam com o vento do oceano,
para soçobrar ao isco traiçoeiro dum anel de fogo e prata.
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Por isso era belo o meu Algarve quando o vi criança ainda,
disfarçadas essas feridas, escondidos os pedintes
indigentes à porta duma igreja ou quando alguém passava
deste mundo exausto para o eterno olvido de seus dias,
era belo o meu Algarve,
sem os fumos de outros mares de tormenta
sem a liça da guerra de outros povos,
outros polvos avassaladores
como o polvo entre os seus braços abraçando um caranguejo
no seu abraço de ventosas e de asfixia prolongada,
uma abóbora prosperando numa leira de tomates e pepinos.
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